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A iconografia da leitura na Idade Moderna aponta para as práticas solitárias. Deixado para trás o espaço coletivo de trabalho, as imagens que se constroem a partir do aperfeiçoamento da imprensa vão corroborando o trabalho da letra em espaços que primam por uma aura de isolamento e silêncio, colada à tarefa de ler e de escrever como um selo à carta endereçada a outrem. O leitor ou a leitora, a escritora ou o escritor exercem seu ofício em meio ao eco dos próprios pensamentos, e o resultado dessas práticas, a materialização dos textos produzidos e consumidos instauram-se como ruído no espaço social, tocam de forma direta a vida das pessoas, provocam deslocamentos sociais os mais variados.

A apropriação – um dos conceitos fundamentais no trabalho de Chartier – é motor no acesso aos bens imateriais – e geradores de riqueza – da leitura e da escrita. Exercício de humanidade cada vez mais patente, a relação entre leitura e qualidade de vida não deixa dúvidas sobre a pertinência do ato de ler como exercício da cidadania – na visão do crítico e escritor Silviano Santiago.

Podem modificar-se, dessa maneira, as vidas da professora anônima, do leitor desconhecido, do operário. Roger Chartier – este historiador que faz da História do Livro e da Leitura seu espaço de pesquisa e produção –, os pesquisadores e as pesquisadoras que disseminam o trabalho dele no Brasil têm colaborado para transformar algumas coisas neste país, nas quais se podem ressaltar o acesso ao conhecimento, a luta por direitos sociais, a busca pelo prazer de viver.
Da solidão dos escritórios e das bibliotecas privadas, dos gabinetes de trabalho nas universidades, vem um ruído comum, presente nas muitas vozes dos trabalhos deste evento, que – em proposta do próprio historiador – busca interfaces com a produção artística e a prática pedagógica.