Objetivos
O uso do vídeo nas escolas e/ou em espaços não-formais de educação já vem sendo pesquisado há alguns anos dentro de perspectivas que ora destacam a sua dimensão instrumental no ensino (dinamização da aula, recurso para propiciar visualização, etc), ora a sua dimensão motivadora da aprendizagem (facilitação da apreensão e memorização de conteúdos, estruturação conceitual, etc). Tais perspectivas têm colocado a questão do ensino-aprendizagem de ciências e saúde com recursos audiovisuais dentro de um contexto sócio-cultural mais amplo - incluindo considerações sobre contextualização do conhecimento, valorização de aspectos sócio-culturais, dos saberes prévios do aluno e da convivência entre os saberes populares e os científicos -, mas não têm levado em consideração a especificidade dos recursos audiovisuais, já que estes, quando usados em sala de aula, tendem a posicionar o aluno, não apenas como aprendiz, mas também como espectador. Isso significa que ao exibir um filme, vídeo ou programa de televisão em sala de aula, o professor traz para o ambiente escolar partes da história e da memória do aluno como espectador audiovisual. Ou seja, traz para o espaço escolar partes de sua "alfabetização audiovisual", de uma experiência de ordem estético-cultural adquirida fora da escola e balizada por valores que não estão sob o controle do professor e frequentemente não são de seu conhecimento. Essas experiências expressam preferências, escolhas e motivações de caráter sócio-cultural que interferem sobre os processos de ensino-aprendizagem com audiovisuais. Estas questões não têm sido satisfatória e suficientemente abordadas nas pesquisas atuais.

Em levantamento bibliográfico recente (REZENDE, PEREIRA, VAIRO, 2009 [inédito]), detectou-se que questões que tocam a especificidade do audiovisual (cinema, televisão e vídeo) em cenários de educação formal e não-formal de ciências e saúde podem não estar aparecendo com clareza nas pesquisas em Educação em Ciências e Saúde por falta de um quadro teórico-metodológico consistente o suficiente para dar conta da dimensão espectatorial do aluno. No campo da comunicação e do cinema, são os estudos de recepção audiovisual que vêm tratando das questões relativas ao espectador e ao seu papel na construção de leituras das obras audiovisuais. Este quadro teórico-metodológico define a recepção não como uma etapa do processo de comunicação, à maneira das teorias mecânico-funcionalistas (SOUZA, 1995), mas como um lugar novo de onde podem ser repensados os estudos e pesquisas de processos que envolvem a comunicação (BARBERO, 1997). Segundo Barbero (1997), os estudos da recepção buscam resgatar a iniciativa e a criatividade dos sujeitos para lidar com o espaço midiático como espaço de ativa produção de sentidos. Para este quadro teórico, o sentido produzido por um material educativo audiovisual, por exemplo, não está inteiramente dado pelo produtor, mas é ativamente construído pelo receptor, a despeito das intenções do produtor.

Metas
O interesse destes estudos para a Educação em Ciências e Saúde está em trazer para o foco da pesquisa a participação do receptor/espectador, complexificando a compreensão sobre como os processos de ensino-aprendizagem são diferentemente produzidos quando mediados por obras audiovisuais, já que estas "ativariam" elementos da experiência que não são ativados em atividades que não utilizam recursos audiovisuais. Trata-se, portanto, de estudar em sua especificidade os processos de ensino-aprendizagem com o audiovisual.
Este projeto pretende estabelecer condições para o incremento do debate em torno das questões acima apresentadas, de forma a ampliar tanto os horizontes colocados pela relação audiovisual/educação, quanto a compreensão da especificidade desta relação.

Metodologia
Em sua fase inicial, a pesquisa será realizada em três etapas: 1) seleção de vídeos do acervo audiovisual do NUTES-UFRJ e identificação de seus modos de endereçamento e leituras preferenciais (HALL, 2003) por meio de entrevistas a realizadores e análise semiótica; 2) realização de exibições experimentais para alunos e professores do ensino médio e de cursos superiores da área da saúde da UFRJ e análise das leituras realizadas por estes sujeitos; e 3) identificação e análise dos indicadores de diferenciação entre as leituras produzidas pelos diversos sujeitos participantes e as leituras preferenciais e modos de endereçamento previamente identificados nos vídeos exibidos.
Esperamos contribuir para que o uso de recursos e produtos audiovisuais em sala de aula seja mais bem compreendido em suas especificidades, limites e possibilidades, e para que se identifique em que medida a polissemia das leituras produzidas pelos alunos, em sua relação com o conteúdo da ciência escolar quando este é apresentado sob a forma audiovisual, intermedeia a aprendizagem de conceitos científicos.